PRESENTE DE NATAL  escrito em sexta 21 dezembro 2007 14:20

 

“Deixei meu sapatinho na janela do quintal, papai Noel deixou meu presente de natal.”

Quem não se lembra da melodia natalina, tão cantada em nossa infância...

Pois é, ensinei meu neto a canção, e quis ele de toda maneira colocar o sapatinho no quintal, achei aquilo lindo, e muito positivo, quero que ele acredite no bom velhinho, que viva sua infância como ela deve ser vivida.

Pois é, acontece que na manhã seguinte o sapatinho não estava mais lá, e tenho certeza que não foi papai Noel que o levou, além de não ser o seu número, não creio que ele trocaria suas botas pretas de neve para usar um minúsculo calçado de criança, junto com os sapatinhos foram outros quesitos que se encontravam no quintal, alguns lençóis de cama, toalhas de banho, e um ferro de passar roupa.

Meu coração ficou apertado, teria que mentir para o menino, ou tiraria dele toda expectativa na espera da noite de Natal.

O difícil foi convencer que o velhinho havia levado seu sapatinho para a fábrica de brinquedos, e que seria dado de presente a uma outra criancinha que não tivesse nada para calçar.

O menino questionou-me perguntando, porque Papai Noel dava sapatos velhos para as crianças pobres, criança gostava de brinquedo e não de sapato, e que ele mesmo tinha deixado aquele no quintal porque machucava seu pezinho, e se pôs a chorar, não pela perda de um sapato que ele não queria mais usar, mas por saber que outra criança o ganharia de presente, e em sua cabecinha inocente a pobre criança além de não ganhar um brinquedo, também ficaria com os pés machucados.

Depois de muito florear a estória, acabei por convencê-lo, este saiu saltitante cantando a velha cantiga...

 “Como é que Papai Noel, não se esquece de ninguém, seja rico ou, seja pobre o velhinho sempre vem.”

Naquele dia, muito do que havia do espírito natalino, que eu ainda tentava resguardar, foi pelo ralo, minha revolta não foi pelas coisas que me roubaram, mas por terem roubado o que ainda restava em mim de criança sonhadora.

Passei boa parte do dia pensativa, o que não estava realmente correto, era a maneira como eu aceitara o furto, com tanta simplicidade, como se fosse aquilo algo natural. Na ilusão de amenizar minha consciência, tentei me convencer de que aquele delito teria sido cometido por alguma pessoa que quisesse dar a alguém um presente de natal, e não poderia comprar.

Mas de nada adiantou, pois eu sei que naturalmente aquelas coisas seriam trocadas por uma criança sim, mas não por um brinquedo e sim por uma pedra de crack.

As lágrimas que não vieram com o choro de meu neto, agora rolavam silenciosas por minha face, uma tristeza abateu-me, ao perceber que a realidade esta distante demais de nossos sonhos de infância, que não podemos mais fazer as coisas simples que as cantigas natalinas nos ensinavam, e que crianças pobres neste país, não ganham presentes de natal por tirarem boas notas, pois a maioria deles esta nas ruas esmolando ao invés de se sentarem em bancos escolares, muitas destas crianças não possui sapato para deixar no quintal, aliás, a maioria se quer tem um quintal.

Vendo as campanhas solidárias de natal, fui ao correio de minha cidade escolher uma destas crianças para presentear, na ânsia de amenizar a culpa que sentia por todas elas, peguei uma cartinha simples, escrita em papel de embrulho, e que pedia com a maior simplicidade a Papai Noel, um emprego para seu Pai. Saio abatida por compreender que minha parte não é simplesmente fazer sorrir uma dessas crianças por apenas um dia, mas tentar ajudá-las a serem dignas.

Ano que vem, buscarei nas urnas um presente real a todas elas, fazendo com que outros despertem suas consciências política, e fazendo-os perceber, que cabe somente a nós cidadãos que tem um “quintal”, mudarem o pedido das cartinhas escritas ao nosso Bom Velhinho.

Feliz Natal.

 

Cristiane Campos  21/12/2007

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A PÉROLA  escrito em sexta 07 dezembro 2007 00:46

 

Recentemente lendo sobre curiosidades, deparei-me com uma reportagem que me deixou pensativa. Falava sobre pérolas, gemas valiosíssimas entre tantas outras pedras preciosas. Muitas lendas cercam as pérolas, os hebreus acreditavam ser elas, as lágrimas vertidas por Adão e Eva depois do crime do filho Caim. Já para os romanos, as pérolas seriam os choros das ninfas, que depois eram consagradas a Vênus por ter esta Deusa nascida no mar.

Os Orientais acreditavam ainda serem as pérolas o fruto do casamento da ostra com o orvalho.

Enfim, as lendas por serem sempre a parte lírica e romântica de algum fato, deixaram traduzidas e impressas a admiração por esta gema preciosa, e acreditava-se ainda, que ela protegia a inocência e era símbolo de pureza.

Mas meus pensamentos se voltaram para uma frase que dizia... “As pérolas são os frutos da dor.”

Quando um grão de areia penetra, as células do nácar começam a trabalhar e cobrem o grão de areia com camadas e mais camadas para proteger o corpo indefeso da ostra.

Fiquei por dias refletindo sobre as palavras lidas, e concluí ser uma verdade.

Se eu passar a vida me protegendo como uma simples ostra, se não me arriscar, se não tentar um novo desafio, se viver fechada e protegida, se for omissa serei apenas mais um molusco a povoar os mares, não terei nenhum valor, nada terei produzido.

A concha de uma ostra é feia e sem atrativos, mas em seu interior brilha do nácar que o reveste, pronto a produzir uma jóia rara.

Se eu quero deixar algum ensinamento precioso, ou fizer valer os meus dias de ostra, é necessário que eu abra a minha concha e permita que os grãos de areia nela penetrem, mesmo sabendo que neste processo sentirei muita dor, só assim produzirei uma pérola. Então terei feito alguma coisa que terá valido a pena, pois aquela gema valiosa não irá desaparecer comigo, se perpetuará como ensinamento.

Porém para que isso ocorra, é necessária grande coragem e boa vontade, de cobrir aqueles grãos com muitas camadas de amor, deixa-los ferir nossa alma, e depois lapida-los até que se transformem em algo realmente valioso.

Não há como negar que é necessário todo um processo para que haja um resultado.

Os grãos da areia branca e macia, que por vezes achamos inofensivos, entram em nossas vidas e tentam nos destruir, causando-nos muita dor, mas a sabedoria que adquirimos com o tempo, faz-nos reverter este mal em ensinamentos.

Quem de nós já não foi traído de alguma forma? Quem de nós já não se desiludiu? Quem de nós já não verteu lágrimas durante esta trajetória?

Lembre-se apenas de que uma ostra que não foi ferida, não produz pérolas. Pois uma pérola nada mais é, que uma ferida cicatrizada.

 

Cristiane Campos

06/12/2007

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AO MESTRE COM CARINHO  escrito em sábado 01 dezembro 2007 18:30

Era comum no dia dos professores levarmos uma flor, um presente, ou um cartão feito por nós com dizeres singelos. Tínhamos enorme respeito por nossos mestres.

Naquela época era indiscutível a ascendência positiva que a escola tinha sobre seus alunos, era seguramente a extensão do nosso lar e nossa educação estava segura e garantida.

Com o passar dos anos, e a modernidade no ensino, alguns fatores mudaram, e, diria que, foram mudanças que causaram uma involução. Mais tarde  como mãe, e não mais como filha, eu via tudo de forma diferente, por mais que eu passasse a meus filhos os antigos valores por mim adquiridos no período escolar, eles tinham que acompanhar o processo evolutivo.

O dia dos professores continuava sendo lembrado, mas o carinho se fora, eu mesma comprava os presente que seriam levados, sob protestos pelas crianças ao professor, pois afinal de contas já não era mais um hábito entre eles. Nenhum desenho feito à mão com letras tortas seria entregue àqueles guerreiros involuntários.

Com os filhos já na adolescência outros problemas surgiram, sentia que havia um maior distanciamento entre pais e educadores. As regras foram aos poucos sendo abolidas, começando pela não obrigatoriedade do uso do uniforme, e com isso, declarou-se uma liberdade que eles não estavam preparados para enfrentar. Com pesar acompanhei a dificuldade de alguns professores que foram meus mestres, e estavam  ensinando meus filhos. Foi quando comecei a entender o que era a vida de um professor.

 

Morando no Mato Grosso, reencontrei uma antiga amiga de colegial, e agora professora de escola pública. Fiquei triste ao ouvir os relatos que dela acerca de crianças que freqüentavam a escola pela merenda, que por vezes era a única refeição decente do dia, chegando ao absurdo de algumas se sentirem mal nas segundas feiras, de fome. Certa época devido à necessidades, meus filhos foram estudar em escola pública, foi quando foram apresentados às drogas, coisa que até então eu sequer imaginava a existência, era um assunto delicado e difícil de ser discutido entre pais e mestres, porém ainda controlável.

Hoje vejo que a situação da educação em nosso país é simplesmente caótica. Tenho acompanhado amigas que lecionam em escolas públicas e vivem afastadas, com depressão, com medo do cumprimento de ameaças que são obrigadas a ouvir de nossos jovens diariamente. Dizem não existir mais alguma forma de respeito, e que o caos é generalizado, perderam-se completamente os valores e com ele, o controle sob a situação. A quem imputar a culpa? Aos pais que hoje precisam fazer jornada tripla para sustentar um lar, aos  professores mal pagos da rede pública de ensino por não poderem enfrentar os alunos que hoje vêm armados para as salas de aula? E quem responde então pelo desvio de verbas das merendas escolares? São estes pais cansados, estes professores aterrorizados? Quem afinal é culpado por toda esta desestabilização que tomou conta da educação neste país. A  resposta está escancarada à nossa frente,  pelos desmandos e negligência de nossos governantes.

 Não existem vencedores nem vencidos nesta batalha, apenas os mutilados por um sistema corrupto e falido.

Ensinei meu neto a borrar a mãozinha de tinta e fazer um cartão à sua professora, na esperança de brotar nele a emoção de emocionar aquela alma digna que dedica seu tempo a ensinar-lhe as lições que ninguém mais tem tempo de corrigir.

 

Cristiane Campos  27/11/2007

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CRISÁLIDA  escrito em quarta 21 novembro 2007 16:54

Lembro-me vagamente, do tempo que eu era lagarta...

Presa aquele casulo translúcido.

Era tudo tão irreal.

Estava ainda em formação, e já podia vislumbrar as flores ao meu redor.

O mundo colorido e cheio de aromas estonteantes que eu não podia tocar, por ainda ser uma simples, mera e feia lagarta.

Quanto tempo demorou esta metamorfose, não posso precisar, mais foi um tempo infinito, até que eu tomasse posse das asas que possuía, e resolvesse romper aquela cortina de seda protetora... E finalmente voar.

Ver do alto as maravilhas que por tanto tempo apenas pude vislumbrar através do véu pálido de minha crisálida.

Uma grande e bela borboleta azul eu me tornei, e por sobre os jardins coloridos e cheirosos, eu viajei por um tempo infinito, polinizando de amor aquele mundo colorido.

No princípio as cores me fascinavam, os aromas me embriagavam...

Minhas jovens asas ainda cheias de forças me levavam aos lugares que nunca vi, sentia-me invencível, quase intocável...

Voei por tanto tempo que não me lembro mais de quantas vezes precisei parar em uma daquelas flores, e beber a água que o orvalho das frias manhãs depositava em suas pétalas, apenas para saciar o cansaço da viagem.

Voei por tempo demais, e aos poucos fui percebendo, que entre aquelas flores lindas e coloridas, havia predadores mortais e muitas armadilhas para uma bela e frágil borboleta azul...

Havia outras borboletas, tão belas e coloridas como eu... Porém mais astutas.

Sabiam fugir, sabiam enganar, sabiam sobreviver, não eram tolas, não acreditavam no brilho do espelho achando ser um diamante.

Eu as observava, e tentava ser como elas, astutas...

Aos poucos, o mundo não era mais tão colorido como eu o via de dentro de minha crisálida.

E o tempo foi passando, e minhas asas que outrora tinham o brilho da juventude, foram ficando opacas e desgastadas. Não gostava mais do que enxergava tanta injustiça e tristeza, tanta doença sem cuidado, crianças sem carinho...

Voei por tantos jardins, buscando novos aromas, que sequer me apercebi que também a linda borboleta azul tem o seu tempo de vida...

Ficou de repente tudo sem cor, sem cheiro, e eu nada podia fazer. Preparei-me para ser uma linda borboleta azul, que levaria o pólen da vida pelos campos floridos, e cheirosos...

Mas em meio aos vôos, senti o cheiro do sangue dos inocentes, o aroma da ganância dos imponentes, a carniça dos políticos inconseqüentes...

O verde das florestas transformou-se em uma densa nuvem negra que o fogo da ignorância insistia em devastar.  Cansei-me de voar.

Voltei a minha antiga casa, para ser novamente lagarta... E de dentro do meu casulo através da cortina de seda, já não vejo mais a beleza que outrora havia nos campos onde Deus semeou a paz.

Pego os pincéis e tento colorir o pequeno mundo que restou dentro de minha crisálida.

 

Cristiane Campos

21/11/2007

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A MATEMÁTICA DO AMOR  escrito em quinta 15 novembro 2007 13:34

Interessante como percebemos que a temática sobre o amor nunca cai de moda, vira e mexe, falamos nisto, adultos, adolescentes, envelhescentes¹, pessoas da melhor ou pior idade que seja, mas é um tema que será eternamente atual e merece consideração.

É preciso cuidado quando refletimos sobre este assunto, pois tenho visto muitas feridas abertas por este sentimento, e que insistem em não cicatrizar.

Sim, insistência é a palavra certa, pois em muitos casos, as pessoas simplesmente se negam a aceitar que o amor se foi, e em uma luta desesperada contra o seu amor próprio que foi extremamente ferido, sempre culpa o parceiro pelas desilusões e pelos erros da relação amorosa.

Mas a coisa não funciona bem assim. Sempre insisto em dizer que o primeiro amor tem que ser por nós mesmos, todo respeito que cobramos de um parceiro, devemos ter pela nossa pessoa, que teoricamente é a mais importante em nossa vida. Não é uma questão de egoísmo, e sim de competência para um futuro sucesso amoroso.

Se partirmos do princípio que uma relação amorosa não é uma equação matemática, compreenderemos que 1 + 1 = 2 na verdade é uma mentira.

Em um relacionamento, 1 continuará sendo sempre 1 independente de existirem 2 em um mesmo espaço.

Se conseguirmos ver sob esta ótica, veremos que existe uma real possibilidade de se ter um verdadeiro amor.

Um grande amor, não é o que escrevem os boêmios embriagados nas letras de suas musicas nem o que lemos em versos de poetas sexualmente mal resolvidos.

Um grande amor não é alguém que se perdeu, e sim, alguém que ainda não se encontrou.

E não se anime, pode ser que ele nunca apareça, vai depender muito da maneira como você aprendeu a se amar, somente assim conseguirá ter compreensão com a maneira que seu parceiro a ama.

Corriqueiramente cobramos um carinho explícito, aquele que podemos ouvir, ou sentir. Mas é um erro, este pode simplesmente ser uma paixão mascarada.

É necessário que saibamos reconhecer que, o verdadeiro carinho pode estar nas entrelinhas e não no soneto em si, e a sabedoria de distingui-lo, somente conseguiremos, observando como declaramos o nosso amor.

Não é fundamental verbalizar as palavrinhas mágicas, e sim que elas sejam declaradas em cada olhar, em cada pequeno gesto, em cada lágrima de solidariedade, em cada ato de defesa que demonstramos aos que realmente amamos.

Quando aprendemos a identificar estes pequeninos detalhes em nossa própria existência, fica mais fácil visualizar o que poderia ser verdadeiramente amor.

Por vezes em nossa vida deixamos passar pessoas que poderiam dedicar-nos este sentimento, mas que não eram agradáveis ao nosso gosto estético, claro, porque quando somos jovens apenas enxergamos a beleza exterior, aquela que acende o tal fogo da paixão, não temos ainda maturidade para reconhecer a beleza que manterá esta chama acesa pra sempre.

Choramos, gritamos e esperneamos quando o “grande amor” vai comprar um maço de cigarros e nunca mais volta. Sofremos e fazemos questão de mostrar ao mundo que fomos rejeitados, buscamos a piedade para que nossa parcela de culpa nesta desunião, se cale.

Mas ela esta lá, e não tem como fugir disso, não existe relação que termine por culpa de uma só parte, neste caso a matemática funciona... rsrs.  50% para cada um na contagem dos erros cometidos. É quando percebemos que na verdade 1 + 1 = 0, ou seja, que aquelas duas partes que nunca se somaram, transforma-se na metade de um grande nada, e assim acaba o que nunca realmente existiu.

Acredita-se que as mulheres são as que mais sofrem de desilusões amorosas, outro grande engano, os homens sofrem muito mais, a mulher tem uma capacidade inata de superação quer seja física ou psicológica, o homem não, este esconde a dor e a fragilidade por trás de sua virilidade, o que não significa necessariamente que ele seja feliz. Bem ao contrário.

Ao longo da vida deparei-me com pouquíssimas mulheres que não superaram uma perda amorosa, em compensação conheci homens, que jamais a superarão.

Assim, depois de decorrer sobre este assunto tão complexo, lhes digo com certeza, que encontrei o meu grande amor, mora onde eu moro, usa as minhas roupas e todo dia me olha através do espelho, sorri e diz que sou a criatura mais linda e importante deste meu mundo.

 

Cristiane Campos

12/11/2007

 

  1. envelhescência: segundo Mario Prata é a fase entre a maturidade e a velhice. http://www.releituras.com/marioprata_envelhece.asp

 

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